Minecraft vira método de ensino em escolas – Criança na Plateia

minecraft-CLAYTON-DE-SOUZA-ESTADAO minecraft-div-notaEm uma sala de aula, 30 alunos com idades entre 11 e 12 anos têm um grande desafio pela frente: reconstituir um feudo medieval do século V. Mas para construir o castelo do senhor feudal, a vila dos camponeses, a igreja com cemitério e a roda d’água sobre o rio, os alunos utilizam uma ferramenta do século XXI, o MinecraftEdu. Trata-se de uma versão pedagógica do jogo de construção Minecraft – adquirido pela Microsoft em 2014 por US$ 2,5 bilhões – que se tornou um fenômeno mundial com mais de 100 milhões de jogadores.

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O game – que foi criado em 2009 e ganhou uma versão educativa em 2011 – permite a criação de qualquer estrutura em um mundo virtual. Parecido com o Lego, o jogo é feito de blocos cúbicos que podem ser colocados em qualquer lugar para construir estruturas.
O projeto de reproduzir um feudo na plataforma faz parte das aulas de história do 7º ano do colégio Porto Seguro. Localizado no Morumbi, zona sul de São Paulo, é um dos poucos colégios brasileiros que já incorporaram o jogo no dia a dia dos alunos. Antes de explorarem o mundo virtual empilhando blocos para erguer as muralhas do castelo, os alunos aprenderam sobre a Idade Média e planejaram como todos trabalhariam ao mesmo tempo.

“Queremos pegar um conteúdo abstrato, que aconteceu no passado, e torná-lo mais concreto para o aluno”, diz a professora de história, Gisela Aquino. Há 20 anos em sala de aula, ela começou a utilizar o jogo como ferramenta de aprendizado em janeiro. “Trabalhamos a colaboração entre os alunos. Quem tem mais habilidade no jogo ajuda quem não tem.” A construção em conjunto é projetada em uma tela para que todos possam acompanhar o andamento do projeto.

Milhares de professores de dezenas de países têm utilizado a versão pedagógica do jogo para ensinar diversas disciplinas aos alunos – de matemática à poesia. “A grande vantagem do Minecraft é ser uma plataforma aberta, o que permite construir as mais diversas narrativas”, diz o professor de educação e tecnologia da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), Claudio Mendes.

Ao contrário de outros jogos presentes no mercado, as pessoas projetam no MinecraftEdu aquilo que desejam criar. “O jogo trabalha da abstração à realização, então não adianta ter uma ideia se você não conseguir executá-la”, diz o professor de tecnologia educacional do colégio Porto Seguro, Francisco Tupy. Um dos destaques do jogo é envolver a pessoa em um mundo virtual em que ela acredita que pode fazer o que quiser. “O jogo explora a autonomia que dá confiança às crianças”, diz David Britton, presidente executivo da Makers Factory, empresa especializada em treinamentos para uso pedagógico do Minecraft.

Fora da escola. “Quando o conteúdo curricular é trabalhado na escola e no jogo, é possível estender esse aprendizado para a casa do aluno ou para onde ele quiser jogar”, diz Mendes. Um jogador de xadrez, por exemplo, torna-se cada vez melhor à medida que estuda as possibilidades de jogadas. Se o estudante passa mais tempo em contato com uma tarefa no Minecraft, ele vai aprender mais – e, neste caso, também pode se divertir.
“Quando contamos que vamos usar Minecraft na sala de aula, os alunos ficam muito felizes e ansiosos”, conta Gisela. Até pouco tempo atrás, os alunos construíam maquetes de feudos, mas a atividade deixou de motivar as crianças. “Hoje o aluno é bombardeado por diversas informações que o distraem em sala de aula. Quando ele conhece e tem interesse em um método que introduzimos, aumentamos consideravelmente seu engajamento”, diz o diretor de educação da Microsoft Brasil, Antonio Moraes.
Desafios. No Brasil, ainda é raro encontrar o Minecraft nas salas de aula. Além das limitações de conexão de banda larga no País, o método enfrenta ainda a resistência dos professores em utilizar novas tecnologias. “A possibilidade de perder o controle dentro da sala de aula é um receio muito grande”, diz o professor da Ufop. Além disso, os docentes têm desafios mais imediatos para solucionar, como cumprir a grade curricular.
Ainda assim, aprender a utilizar o Minecraft na escola não tem mistério. “É preciso entender como criar o mundo e quais os botões de movimentar, quebrar e colocar peças. Em menos de uma hora, eu capacito um professor”, diz Tupy.

Embora o Minecraft revele uma nova perspectiva para o ensino, ainda não é possível afirmar que o método melhora a retenção do aprendizado. “As tecnologias oferecem informações de forma mais objetiva e cativantes”, diz Mendes.

Microsoft vai lançar nova versão do jogo para educadores

Atenta ao potencial do Minecraft nas escolas, a Microsoft anunciou que vai lançar uma nova versão educacional do jogo no segundo semestre de 2016. Chamado de ‘Minecraft: Education Edition’, o jogo ganhará recursos adicionais como mapas com coordenadas para localizar os jogadores, espaço para criação de portfólios, avatares personalizados e a possibilidade de que os professores compartilhem com mais facilidade os mundos construídos por seus estudantes. A versão virá com conteúdos específicos, como um mapa baseado no Japão Feudal (usado em aulas sobre poesia nipônica), assim como outros mapas usados para lições de arte ou de química.

De acordo com o diretor de educação da Microsoft Brasil, Antonio Moraes, o recurso que permite que várias pessoas joguem entre si também será aprimorado. “Será possível incluir até 40 jogadores simultâneos trabalhando em um único mundo”, diz.
A Microsoft pretende cobrar uma assinatura mensal no valor de US$ 5 por aluno.

O professor do Colégio Porto Seguro, Francisco Tupy, teve acesso a versão de testes da plataforma. O jogo, segundo ele, não terá muitas modificações. “É um sistema de gestão de sala de aula e de troca de informações entre professores”, diz.

A ideia de explorar o Minecraft na escola surgiu de um grupo independente de professores e programadores que criaram, em 2011, o MinecraftEdu, versão do jogo atualmente utilizada nas escolas. Com a adoção da plataforma em mais de 40 países, a Microsoft adquiriu o MinecraftEdu por um valor não revelado em janeiro de 2016.

Fonte: Estadao por Thiago Sawada

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